Sócrates.



BIOGRAFIA

Sócrates era Ateniense, filho de um escultor e uma parteira. É provável que a profissão da mãe tenha lhe dado as primeiras referências de seu método de filosofar, a maiêutica – do grego μαιευτιxός (maiêuticos), “relativo aos partos” (PEREIRA, 1976, p.354). Não fundou nenhuma escola filosófica, não escreveu livros, não foi o primeiro filósofo, mas, para muitos seus ensinamentos nas praças públicas de Atenas lhe garantiram um lugar de destaque entre os grandes filósofos da história humana. Para Platão, seu discípulo, ele era o filósofo por excelência, defensor da ideia que afirma: uma vida não examinada não merece ser vivida.
Como nada escreveu, o pensamento de Sócrates chegou até os dias atuais por meio de outras fontes, a saber: a) a visão de Platão sobre seu mestre, que registra seus ensinamentos, em sua “Apologia de Sócrates”; b) os diálogos de Xenofonte, escritos entre 380 e 355 a.C.; c) a comédia de Aristófanes, escrita em 424 a.C., intitulada “As nuvens”. Vale ressaltar que nesta comédia “o filósofo é satirizado, apresentado como um sofista, amoral, interesseiro e andrajoso” (MARCONDES, 2006, p.45), numa descrição muito diferente daquela apresentada por Platão e Xenofonte.
Vale recordar que a Filosofia grega foi uma tentativa de superação das explicações mitológicas, esta, provavelmente, a primeira forma de explicação do universo (cosmos) e da natureza (phísis), como um todo ordenado e perfeito. Foram os denominados pré-socráticos como, por exemplo, Tales de Mileto (624-558 a.C.), Heráclito (535-476 a.C.), Pitágoras (570-495 a.C.), entre outros, a iniciar esta tarefa contemplativa do cosmos supostamente ordenado e a estudar a natureza por meio da especulação racional. Sócrates sucede os filósofos da phísis e traça a linha divisória ou a passagem do pensamento grego, da φύσις (phísis) – ordem natural, “natureza, [...] condição natural, força produtora, substância das coisas, ser animado” (PEREIRA, 1976, p.621), para o νόμος (nómos) – “uso, costume, [...], lei” (op. cit, p.391), ou seja, marca a entrada do pensamento grego, a partir da especulação racional, nos assuntos humanos, a perguntar quem é o Homem? (REZENDE, 1986). Enquanto os pré-socráticos buscavam o άρχή (arché) – a essência das coisas e o princípio originário do qual o universo teria sido construído, como a água, o ar, o fogo, o átomo etc., e os sofistas argumentavam que o homem é a medida de todas as coisas, Sócrates colocou o Homem no centro da reflexão filosófica e não mais a compreensão da natureza ou o desenvolvimento da retórica como elementos centrais da Filosofia.
Pode-se dizer que os elementos fundamentais do socratismo podem assim ser resumidos:
1º valor da indagação filosófica, sem o que a vida não é digna de ser vivida; 2º a indagação restringe-se ao homem, não havendo interesse por qualquer estudo da natureza; 3º identificação entre ciência e virtude, e não é possível praticar o bem sem conhecê-lo; 4º a importância atribuída ao ensinamento: nada se ensina, pois apenas se favorece o parto intelectual dos ouvintes; 5º método de interrogação e a ironia (ABBAGANANO, 2012, p.1085).

OS SOFISTAS

Os sofistas, visto pelos olhos de Platão, eram consideradas pessoas se distanciavam do pensamento socrático, tidos como “mestres de retórica e de oratória” (MARCONDES, 2006, p.48). De um lado, Sócrates desenvolvia a maiêutica, definia a refutação para a purificação (catarse), via o verdadeiro educador como aquele capaz de levar à ’αρετή (areté), “capacidade, [...], valor, virtude” (PEREIRA, 1976, p.81) e o filósofo como o construtor de conhecimento e sabedoria; de outro lado, os sofistas desenvolviam a retórica ou a erística, definiam a refutação como disputa verbal – refutar por refutar, eram negociantes das ciências da alma e varejistas das ciências.
A crítica de Sócrates aos sofistas consiste em mostrar que o ensinamento sofistico limita-se a uma mera técnica ou habilidade argumentativa que visa a convencer o oponente daquilo que diz, mas não leva ao verdadeiro conhecimento. A consequência disso era que, devido à influência dos sofistas, as decisões políticas na Assembleia estavam sendo tomadas não com base em um saber, ou na posição dos mais sábios, mas na dos mais hábeis em retórica, que poderiam não ser os mais sábios e virtuosos. Os sofistas não ensinavam portanto o caminho para o conhecimento, para a verdade única que resultaria desse conhecimento, mas para a obtenção de uma “verdade consensual”, resultado da persuasão. É essa oposição que marca, segundo Sócrates, a diferença entre filosofia e sofistica, e que permite com que Platão e Aristóteles considerem os sofistas como não filósofos (MARCONDES, 2006, p.48).

Enquanto Sócrates dizia “nada saber” e fazia da filosofia uma atividade do homem livre, que vive a vida examinada, os sofistas diziam “saber tudo”, que tinham argumentos para todas as coisas e faziam da filosofia um negócio, pois cobravam para ensinar. Enquanto os sofistas eram professores ambulantes, Sócrates se manteve fiel à πόλις (polis). 
Segundo Marcondes eles possuíam “uma concepção filosófica segundo a qual o conhecimento é relativo à experiência humana concreta do real, a verdade resultando apenas de nossas opiniões sobre as coisas e do consenso que se forma em torno disso” (MARCINDES, 2006, p.49). Eis a ideia de relativismo, em que a verdade pode ser vista como múltipla e mutável. Sócrates se opõe a esta ideia e defende “a necessidade do conhecimento de uma verdade única sobre a natureza das coisas, afastando-se das opiniões e buscando a definição das coisas” (idem).
O filósofo, segundo Sócrates, deveria visar formar cidadãos, mas os sofistas entendiam a filosofia como uma ferramenta para destruir argumentos dos interlocutores, uma técnica de persuasão, de modo a ridicularizar os adversários; tais argumentos capciosos, manipulados, de acordo com os interesses, criava a ideia de inexistência da verdade, enquanto Sócrates buscava estabelecer a política como ciência e buscar o acesso à verdade, a partir de argumentos “verdadeiros”, e não construídos segundo os interesses particulares.

A MAIÊUTICA

A maiêutica socrática entendia que o ser humano deveria ser ajudado a realizar o próprio parto das ideias, já que, para ele, nada era ensinado, antes, o conhecimento deveria brotar, nascer, a partir do método da interrogação e da ironia, após a gestação promovida pela especulação racional, capaz de gerar este parto do autoconhecimento, que conduziria à verdade única ou à essência das coisas – o conhecimento. Ou seja, a compreensão das coisas deveria “ser resultado de um processo de reflexão do próprio indivíduo, que descobrirá, a partir de sua experiência, o sentido daquilo que busca” (MARCONDES, 2006, p47), ou ainda, “trata-se de um exercício intelectual em que a razão humana deve descobrir por si própria aquilo que busca” (idem).
Segundo Marcondes, sua concepção filosófica “pode ser caracterizada como um método de análise conceitual. [...] ilustrado pela célebre questão socrática ‘o que é ...?’, [...] através da qual se busca a definição de uma determinada coisa, geralmente uma virtude ou qualidade moral”, fugindo da opinião ou δόξα (doxa), “parecer, opinião, juízo, crença, conjectura, imaginação, aparência” (PEREIRA, 1976, p.150), em direção à ’επίσταμαι (episteme), “saber, ser capaz de, ser versado em, ser exercitado em, estar bem informado de, saber com certeza” (op. cit., p.220), o saber profundo, ontológico; o método socrático busca uma definição ou verdade única, essencial, profunda. È ele mesmo que diz à Ménon: “como poderia saber se uma coisa tem uma determinada propriedade se sequer sei o que ela é” (MARCONDES, 2006, p.46), ou ainda, “qual a característica em relação à qual elas não diferem, mas são todas iguais?” (op, cit., p.47).

O método socrático envolve um questionamento do senso comum, das crenças e opiniões que temos, consideradas vagas, imprecisas, derivadas de nossa experiência, e portanto parciais, incompletas [...]. É exatamente neste sentido que a reflexão filosófica vai mostrar que, com frequência, não sabemos aquilo que pensamos saber. Temos talvez um entendimento prático, intuitivo, imediato, que contudo revela inadequado no momento em que deve ser tornado explícito. O método socrático revela a fragilidade desse entendimento e aponta para a necessidade e a possibilidade de aperfeiçoá-lo através da reflexão. Ou seja, partindo de um entendimento já existente, ir além dele e buscar algo mais perfeito, mais completo (MARCONDES, 2006, p.47).

Os diálogos socráticos são aporéticos, sem respostas prontas, inconclusivos, enfocam questões e dúvidas, como interrogador em busca de saber “o que é”, alguém que tenta mostrar aos homens que nada sabem, inclusive ele próprio. Nesse sentido a maiêutica designa a tarefa do filósofo, que “não é transmitir um saber pronto e acabado, mas fazer com que o outro indivíduo, seu interlocutor, através da dialética, da discussão no diálogo, dê a luz a suas próprias ideias” (MARCONDES, 2006, p.48), inicialmente pelo questionamento do sabido, seguido de sua problematização capaz de produzir o reconhecimento da própria ignorância, que é o princípio da sabedoria socrática, registrada em sua célebre fórmula socrática “só sei que nada sei”, e, finalmente, abrir espaço para encontrar o verdadeiro conhecimento, epistêmico, “afastando-se do domínio da opinião (doxa)” (idem)
à procura da sabedoria, da virtude aretéica e da felicidade eudaimônica, originária da alma e não das coisas exteriores ao corpo, por meio do domínio da racionalidade sobre a própria animalidade, capaz de gerar a liberdade socrática e autodomínio. Sócrates busca levar seu interlocutor, pela discussão, “ao cair em contradição, ao hesitar quando parecia seguro – passe por todo um processo de revisão de suas crenças e opiniões, transformando sua maneira de ver as coisas e chegando, por si mesmo, ao verdadeiro e autêntico conhecimento” (MARCONDES, 2006, p.47-48).

SABEDORIA, VIRTUDE E FELICIDADE

A sabedoria, para Sócrates, estaria ligada à condição de superação das paixões e vícios que aprisionam o Homem e lhe retiram o autodomínio racional. Como assinalou Jaeger, “somente o sábio, que esmagou os monstros selvagens das paixões que lhe agitam no peito, é verdadeiramente suficiente em si mesmo: ele se aproxima ao máximo da divindade, do ser que não necessita de nada” (REALE, 2017, p.91), portanto, é feliz e virtuoso, livre e sábio.
O termo virtude (άρετή), em Sócrates, significa “aquilo que faz com que a alma seja tal como a natureza determina que seja, isto é, boa e perfeita. E, segundo Sócrates, esse elemento é a ciência ou conhecimento, ao passo que o vício seria a privação de ciência ou conhecimento, vale dizer, a ignorância” (REALE, 2007, p.89), fazendo cada coisa ser o que deve ser. Por exemplo, a virtude do cão é ser um bom guardião. 
Segundo Sócrates, os verdadeiros valores estão naquilo que é governado pelo juízo e pelo conhecimento, e não nas riquezas, no poder, na fama etc., ou seja, ele procurava submeter a vida humana e seu valores ao domínio da razão, capaz de evitar o “erro da razão” – o pecado se reduz a “erro de cálculo”, decorrente da ignorância do verdadeiro bem, ou seja, quem faz o mal o faz por ignorância do bem. Seria impossível ao filósofo da maiêutica alguém dizer “vejo e aprovo o melhor, mas no agir me atrevo ao pior, porque quem vê o melhor necessariamente o faz” (REALE, 2007, p.90), a não ser que esteja no vício da ignorância. O Homem virtuoso não pode sofrer nenhuma mal, pois nada é capaz de atingir a harmonia interior alcançada por um estado eudaimônico (felicidade)
O termo felicidade, em Sócrates, se identifica com a ordem da alma, ordem espiritual, com uma harmonia interior, que não deriva das coisas exteriores ao corpo, mas somente da alma. Nesse sentido, o Homem seria “o verdadeiro artífice de sua própria felicidade ou infelicidade" (REALE, 2007, p.92).

O JULGAMENTO

Um dos fatos mais lembrados sobre a vida de Sócrates está ligado à sua morte. Na “Apologia de Sócrates, escrita por Platão, há o relato do julgamento de Sócrates, em Atenas, acusado de perverter os argumentos bons, corromper os jovens e não adorar os deuses. De fato, “o filósofo confronta o Estado, em que suas ideias se insurgem contra as práticas políticas da época, em que a necessidade de independência do pensamento é explicitada e discutida pela primeira vez em nossa tradição” (MARCONDES, 2006, p.44-45). A democracia ateniense não poupou da pena de morte um de seus mais brilhantes filhos.
Sócrates se defendia dizendo nunca ter ensinado ninguém, nem ter cobrado por isso, numa clara referência de oposição aos sofistas. Se declarava apenas um homem “coerente com o que ensinava” (MARCONDES, 2006, p.45), portador de uma missão – mostrar a ignorância em que estão os supostos sábios, procurar a sabedoria e ser sábio, compreender que nada sabia. Alegava que sempre praticou a justiça, que não temia a morte, pois não a conhecia, e somente buscava agir com justiça. E, “diante de um júri de 501 cidadãos, Sócrates apresenta um longo discurso, sua apologia ou defesa, em que, no entanto, longe de se defender objetivamente das acusações, ironiza seus acusadores” (op. cit.) e “recusa declarar-se inocente ou pedir uma pena”, não deixando opção ao seus julgadores a não ser a condenação.
É possível que as alegações de seus acusadores derivem de um ódio acumulado frente à figura destacada e crítica aos padrões políticos e aos próprios políticos e gestores do estado ateniense, por sua postura autônoma e seu desapego ao establishment da época. Marcondes ensina que a “motivação da acusação é claramente política: contra as críticas aos que ele considerava um desvirtuamento da democracia ateniense, e contra sua discussão e questionamento dos valores e atitudes da sociedade da época” (MARCONDES, 2006, p.45). 
Seus ensinos revolucionários abriram caminho para um processo que terminaria com sua execução – a morte por ingestão de veneno (cicuta). Mesmo estimulado por seus discípulos a “voltar atrás”, com o fim de preservar sua vida, Sócrates, no entanto, foi firme e seguro até o momento de cumprimento de sua sentença mortal (OLIVEIRA, 2007), rejeitou a fuga para o exílio, “preferindo morrer como cidadão ateniense e sempre coerente com suas ideias do que viver numa terra estranha: fugir equivaleria a renegar suas ideias e princípios” (MARCONDES, 2006, p.45). Assim, morria o homem, nascia o ícone da filosofia, o mestre de muitos discípulos. 





REFERÊNCIAS

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 6.ed.. Tradução de Ivone Castilho Benedetti, São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.
PEREIRA, Isidoro. Dicionário grego-português e português-grego. 5.ed. Portugal, Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1976. 

MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. 10. ed.. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

OLIVEIRA, Maria E. M. de. Da interrogação socrática à fundamentação da ciência em Aristóteles, Revista Filosofia Ciência&Vida, ano II, n.18, 2007, p.20-29.

REALE, Giovanni. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média, v.1, 10. ed.. São Paulo: Paulus, 2007.

REZENDE, Antonio. Curso de Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1986.

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