Filosofia - O que é?



Etimologia 

 A palavra filosofia corresponde a união de dois termos, filía (Φιλία) ou fílos (Φίλος), que pode ser traduzido como “amor” ou “amizade”, ou ainda, figurativamente, pode significar “desejo”, “inclinação” ao poder, por exemplo; e sofia (Σοφία) ou sofós (Σοφός), que quer dizer “conhecimento”, “saber”, “ciência”, mas, também pode significar “habilidade manual”, “prudência”, “sagacidade” ou “astúcia” (PEREIRA, 1976). Logo, os dois juntos representam algo como “amigo da sabedoria” ou “amor ao conhecimento”. A Filosofia já representou a totalidade do conhecimento, “todo o conjunto de conhecimentos que o homem podia alcançar” (MORENTE, 1976, p.28), acerca da realidade (όντοϛ), do homem, da natureza ou substância das coisas (φύσιϛ), do mundo ordenado (κόσμοϛ), ou ainda, a própria sabedoria, a busca pela verdade e a ciência - o saber racional e reflexivo, (επιστήμη), como pensava Platão, distinto da opinião ou parecer (δόξα), das “filosofias” vulgares. O livro de Jostein Gaarder, O mundo de Sofia, indica que a filosofia é mais um perguntar problematizador e questionador do que um propor respostas prontas e universalizantes, ao apresentar uma jovem candidata à filósofa, que se inicia nas primeiras perguntas filosóficas: quem é você? De onde vem o mundo? Qual é a coisa mais importante na vida? Talvez Deleuze siga nesta direção quando diz que Filosofia é a arte de criar conceitos (2016). Nesse sentido, não cabe estabelecer uma definição de filosofia, pois, isto faria escapar a própria filosofia de seu campo de ação, menos preocupada em se fazer prescritiva e definitiva. Talvez, melhor seja se associar ao pensamento de Merleau-Ponty e dizer que “a verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo” (apud ARANHA, 1993, p.71), ou ainda, acolher a ideia de que “uma definição de filosofia, que se dê antes de tê-la vivido, não pode ter sentido, resultará ininteligível” (MORENTE, 1976, p.24). Filosofias Mas, quantas filosofias você conhece? O religioso convicto possui a sua filosofia, assim como o integrante de certa “tribo” afirma-se a partir de uma filosofia de vida comum. Muitos seguem filosofias que aprenderam de seus pais ou que encontraram em um livro. Assim, todos teriam uma filosofia própria? Explico: é importante distinguir a ideia de Filosofia, que é um campo próprio do conhecimento humano, das chamadas filosofias, que está relacionada à concepções de vida (pensamento de alguém que você admira), a estratégias de como lidar com certos problemas (filosofia do técnico de futebol), uma forma de executar seu trabalho (ideias sobre como alcançar produtividade maximizada), saberes de direção (crenas religiosas ou místicas), regras ou ideias morais prescritivas (princípios de auto-ajuda ou o “politicamente correto”) etc.. Estas formas de saber ou conceber a vida e as relações sociais são denominadas “filosofias”, como saberes mais ligados à ideia de certo e errado, bom ou ruim, desejável ou abominável, concepções e crenças produzidas pela cultura, instalada na história do pensamento, no tempo e espaço geopolítico humano. Nesse sentido, pode-se dizer que o termo Filosofia, no singular e com “f” maiúsculo diz respeito a algo diferente das várias “filosofias”, não raras vezes, criadas a partir do senso comum. Também é possível dizer que a Filosofia é um tipo de conhecimento ou um modelo de conhecimento da realidade, um campo diferente de outras áreas do conhecimento. Dentre estes outros espaços de produção do conhecimento vale lembrar a mitologia, e ainda, o saber derivado do senso comum, ou conhecimento vulgar, superficial, valorativo e assistemático, falível e inexato, diverso do conhecimento científico, que busca aprofundamento e objetividade, é sistemático, falível e nem sempre plenamente exato. Destaque-se, também, a teologia e a religião, a estética etc., que compõem um campo complexo do pensamento humano. Mitos, pré-socráticos e sofistas Antes do surgimento da filosofia no pensamento humano, houveram outras formas de pensar o mundo e construir o conhecimento. A mitologia, talvez, tenha sido a primeira forma organizada de conceber o mundo entre os homens, fruto de sua curiosidade por saber. Sob esta designação reúne-se o conjunto dos relatos dos antigos gregos sobre seus deuses e seus heróis, pelos quais explicavam alguns rituais religiosos e até mesmo alguns momentos do seu passado. [...] escreveu P. Ellinger, ao situar as pesquisas sobre o mito grego: [,,,] “o mito deixou de ser uma coisa incompreensível vinda do fundo das eras [...], para passar a constituir as categorias e as grandes articulações de um imaginário que permitia aos gregos pensar a realidade tanto no cotidiano como no acontecimento.” (ABBAGNANO, 2004, p. 203-204). Os mitos não são apenas estórias de deuses antropomórficos que se relacionam com os homens ou de homens heróis que desafiam a natureza e a vencem. Trata-se de um imaginário humano a buscar entender o cosmos e a vida que lhe rodeava. De certa maneira a curiosidade por conhecer a verdade sobre as coisas já está presente na construção dos mitos gregos. As principais fontes da mitologia grega antiga foram escritas, provavelmente, no século VIII a.C. por Hesíodo (VI a.C.) e sua Teogonia – genealogia dos deuses e do mundo, e por Homero (IX a.C.), considerado o autor de Ilíada, narrativa da Guerra de Tróia e os personagens como o troiano Agamenon, irmão de Menelau, marido de Helena, raptada por Páris e levada à Tróia. Homero também teria escrito a Odisséia, sequência de Íliada, que narra o regresso de Ulisses ou Odisseu a Ítaca, onde Penélope, sua esposa, o teria esperado durante longos anos, durante a guerra de Tróia (ANDERY, 1994). Embora se dê mais visibilidade à mitologia grega antiga, os relatos sobre a formação do mundo e a existência de um politeísmo que forma e governa o mundo e se relaciona com o homem e seus interesses, que explica a natureza e a existência, não é exclusividade dos gregos, mas, aparece em diversas outras culturas como, por exemplo, os egípcios, os judeus, os chineses, nórdicos etc. Entre os deuses da mitologia grega pode-se citar Zeus, rei de todos os deuses, Afrodite, deusa do amor, beleza e sexualidade, Hades, deus do inferno e dos mortos, Atena, deusa da sabedoria e dos ofícios, Cronos, e Gaia deuses do tempo e o planeta terra, Dionísio ou Baco, deus das festas e do vinho, Poseidon ou Netuno, deus dos mares e das tempestades etc. Na mitologia grega os deus explicam alguns comportamentos humanos, como o mito de édipo, que tipificaria a realidade do incesto. Também suas narrativas apresentam deuses que se ligam sexualmente aos humanos e geram os chamados semideuses, como é o caso de Hércules, filho do deus Zeus e a mortal Acmena, esposa de Anfitrião, ou ainda, a figura de Perseu, filho de Zeus com Dânae, filha do rei Argos. Alguns mitos gregos se popularizaram como o mito de Narciso, de Édipo, de Sísifo, de Ícaro, Prometeu e Pandora etc. É possível que os pré-socráticos, assim denominados pelo fato de aparecerem antes de Sócrates, tenham inaugurado as primeiras páginas da história do pensamento filosófico, rumo à fundação de uma nova classe de saber – a filosofia. Destaque-se, entre eles Tales de Mileto (624-558 a.C.) e Heráclito (530-460 a.C.) de Éfeso, da escola jônica, Pitágoras de Samos (570-495 a.C), da escola italiana e Zenão de Eleia (490-430 a.C.) etc. Sua preocupação principal estava focada na contemplação (ϴεωρία) do mundo ordenado (κόσμοϛ), para além das explicações mitológicas. Estes primeiros filósofos buscavam superar as explicações mágicas e mítico-religiosas ofertada pelos mitos. Por exemplo, entre os filósofos que faziam parte de uma escola jônica, havia o propósito de “buscar uma explicação do mundo natural (a physis, Φύσις, daí o nosso termo “física”) baseado essencialmente em causas naturais” (MARCONDES, p.20), caracterizando um claro rompimento com o pensamento mítico, enquanto explicação da realidade. Os sofistas, termo que deriva da palavra gregas sophos (σοφός) - “habilidade manual, conhecimento, saber, ciência, [..], astúcia” (PEREIRA, 1976, p.523), eram filósofos atenienses da segunda metade do século V, especializados em retórica e oratória. Eles buscavam o “reexame de um certo número de verdades, consideradas até então inquestionáveis” (MOSSÉ, 2004, p.260) como, por exemplo, a origem das leis, por eles distinguidas entre leis naturais e as convencionais, estas últimas tidas num plano ou caráter relativo, portanto, discutível; diziam que “uma lei boa para uma cidade não era para outra, e o que aqui era considerado justo não seria necessariamente alhures” (idem). Eles não só questionaram a natureza dos deuses como, também, apostaram num modo de fazer filosofia plenamente engajado com a realidade vivida e experimentada pelo ateniense de seu tempo; apresentaram a filosofia como uma maneira concreta de desvelar e reaprender, ativamente, a vida humana, imersa num pensamento complexo. A frase “o homem é a medida de todas as coisas” é atribuída ao sofista Protágoras (480-421 a.C.) Sobre eles pode-se dizer, segundo Mossé, que surgiram [...] para ensinar a jovens com ambições políticas as maneiras de persuadir uma audiência. Esses professores de eloquência cobravam muito caro por suas aulas, a acreditarmos nas críticas que lhes dirige seu principal adversário, o filósofo Platão, opondo-lhes seu mestre Sócrates, cujo ensino era gratuito. Platão, porém, não apenas acusava os sofistas de venderem o seu saber, como só consideravam mestres na arte de elaborar e defender raciocínios falaciosos, sentido que a posteridade viria a reter. [...]. (MOSSÉ, 2004, P. 259-260). Nesse sentido, o antagonismo entre Sócrates e os sofistas centrava-se na forma de concepção do pensar filosófico e os seus fins, mas, é possível que haja uma razão além desta discussão metodológica: trata-se de uma questão política concreta: a democracia ateniense. Diz Mossé: Em todo caso, parece que a democracia ateniense desconfiava dos sofistas, que recrutavam seus alunos entre os jovens ricos, que estariam em grande número envolvidos nas duas tentativas oligárquicas do fim do século V e que, ao questionarem as tradições da cidade-estado, eram vistos por elas por ela como uma ameaça. A corrente sofista, porém, não deixa de ser um momento importante da história grega, revelando tensões e os problemas por que passaria a democracia ateniense no fim do século V (MOSSÉ, 2004, p.260). O fato da filosofia grega se envolver com uma questão prática, relacionada à situação política de sua época, mostra que o pensar filosófico não é apenas uma abstração desvinculada da realidade, antes, está ligada ao drama da vida vivida no cotidiano e, hoje, pode representar uma ferramenta na compreensão da vida e um fator capaz de conspirar a favor da condição humana. 

Filosofia grega clássica 

 Embora filosofias possam ser encontradas em muitas culturas e povos antigos, foi na Grécia do século VI a.C, aproximadamente, que surgiu o que se denomina, no ocidente, de Filosofia, como uma busca por explicações do mundo e do ser humano, a partir de outros parâmetros diferentes do que se tinha na época, que, basicamente, se apoiava na mitologia. A polis e a democracia ateniense, bem como sua situação cultural, econômica e política favoreceram a passagem do mito ao logos como forma de uma nova experiência intelectual. Segundo Iglesias, Platão e Aristóteles indicaram com precisão a experiência que, segundo eles, deu origem ao pensar filosófico. É aquilo que os gregos chamaram de “thauma” (espanto, admiração, perplexidade) (IGLESIAS apud REZENDE,1986, p.13). Dentro da filosofia grega antiga cabe destacar dois personagens: o primeiro é Tales de Mileto (624-558 a.C), jônico, “considerado o inaugurador da história da ciência e filosofia gregas” (MOSSÉ, 2004, p.264). Tales, ao buscar o arqué ou elemento primordial, entendeu que a água era o princípio de todas as coisas. Pesquisador, se dedicou à contemplar o universo para descortiná-lo, trazendo grande avanço ao pensamento humano em muitas áreas, como a astronomia e a política. Representa o início do período pré-socrático. Outro destaque é para Sócrates (470-399 a.C.), responsável por “introduzir uma nova problemática na discussão filosófica, as questões ético-políticas, ou seja, a problemática humana e social que praticamente ainda não havia sido discutida” (MARCONDES, 2006, p.30). Importante, também, foram Platão (427-347 a.C.), tido como “pai” do Idealismo e Aristóteles (384-322), tido como “Pai” do Realismo. Estes representam o período da Filosofia clássica. Após os períodos pré-socrático, naturalista, e a era clássica, com seu viés antropológico e ético, emerge o período helenístico – epicurismo, estoicismo e ceticismo, que foi sucedido pelo período romano, já sinalizando o fim da era áurea da filosofia grega antiga, movida, em grande medida pela ideia de que a essência precede a existência. 

Entendendo melhor 

O que é Filosofia? 
Segundo Warburton (2008) a filosofia é o que os filósofos fazem, uma atitude, um modo de pensar a partir de argumentos lógicos, um tipo de conhecimento que ajuda a explicar as coisas que nos cercam, uma ferramenta para esclarecer e explicar nossos preconceitos. Iniciada com os gregos antigos, na busca pelo sentido da vida, está presente até hoje em nosso cotidiano. Sócrates dizia que uma vida não examinada não vale a pena ser vivida. Filho de uma parteira, entendia que a filosofia deveria promover um “parto das ideias”, que é o centro de seu método filosófico, chamado de maiêutico, palavra que vem do grego e significa “parto”. Ou seja, para Sócrates, a filosofia traz clareza, liberdade e, também, angústia, na tarefa de aprender a “ver” o mundo e na alegria em ter uma vida bem vivida, examinada, questionada e crítica, curiosa, que sempre se admira com a realidade. A esta curiosidade em conhecer, os gregos chamavam de thauma. Segundo Perissé [...] Filosofia é um corpo de conhecimentos, constituído a partir de um esforço que o ser humano vem fazendo de compreender o seu mundo e dar-lhe um sentido, um significado compreensivo. [...] é uma forma de conhecimento que, interpretando o mundo, cria uma concepção coerente e sistêmica que possibilita uma forma de ação efetiva. Essa forma de compreender o mundo tanto é condicionada pelo meio histórico, como também é seu condicionante. Ao mesmo tempo, pois, é uma interpretação do mundo e é uma força de ação (PERRISÉ, 2011, p.34 e 41) Assim, ao contrário do que muitos pensam, a filosofia não é um pensamento abstrato e meramente contemplativo da vida, mas, “algo que o homem faz, que o homem tem feito. [...] mais do que qualquer outra disciplina, necessita ser vivida” (MORENTE, 1976, p.23), portanto, como já foi assinalado, “uma definição de filosofia, que se dê antes de tê-la vivido, não pode ter sentido resultará ininteligível!” (op. cit. p.24). Talvez por causa dessa falta de vivência é que muitos não compreendem a importância da filosofia na constituição da condição humana. Mas, porque pode ser interessante que a grande maioria das pessoas creiam que a filosofia é algo que não serve para nada, que não passa de “perfumaria”, sem relevância, como dizem alguns, desnecessária nos dias atuais? É possível que a descartabilidade da filosofia possa produzir uma estratégia de alienação poderosa e uma ferramenta de controle panóptico da vida, uma ferramenta de des-humanização. Assim, acolhida esta premissa, é possível dizer que, a condição humana, desumanizada e categorizada, por exemplo, num sistema capitalista mercantil de consumo, baseado na soberania do deus-dinheiro, da produção-reprodução-consumo e do mercado pseudo “libertador”, simulacro de felicidade e autonomia da condição humana, destituída da luz da reflexão problematizadora sobre a própria vida, tornaria o ser em um ente refém de uma servidão, talvez voluntária em alguns casos, destituído de sua própria dignidade e condição humana? 

Por quê estudar Filosofia? 
A Filosofia permite aprender a ver e ler o mundo com maior clareza, liberdade e angústia, observando o que o senso comum nunca imaginaria. Estudar filosofia significa nutrir e satisfazer o prazer taumático pela vida, a curiosidade e admiração pelo saber mais, o thauma grego, em questões básicas e profundas. Dizia Sócrates que uma vida não examinada não vale a pena ser vivida, ou seja, estudar filosofia equivale a correr os riscos de uma vida examinada, melhor vivida e conhecida, um ser mais. É claro que estudar filosofia não é uma atividade trivial ou fácil. Não! Ela exige elevado nível de abstração e horas de leitura atenta e crítica, mas, nada que um bom programa de estudos não resolva. Talvez a linguagem filosófica, as vezes longe do vocabulário do cotidiano, possa atrapalhar um pouco, mas, essa ampliação do universo vocabular também faz parte da tarefa de conhecer o mundo e a condição humana. E, embora a filosofia traga mais perguntas do que respostas, o sair da situação de mesmismo de uma vida sem reflexão e o risco de sair dessa situação do “é assim mesmo!” para tudo tem seus benefícios e sua riqueza para a condição humana. Mas não se pode iludir-se: a Filosofia não é a panacéia da existência humana. 

Filosofar é preciso. Mas, o que é filosofar? 
Como disse Perissé, a filosofia é uma espécie de “farejar” o mundo, “meter” o nariz pensante em todas as ideias, causas e razões, signos e verdades, enfim, todas as áreas do saber, inclusive a educação, as artes, a política, assuntos complexos e corriqueiros, que estejam presentes no mundo dos homens, integrem a condição humana. E este “farejar” do nariz filosófico não trata de “rastrear apenas o perfume das rosas ou catalogar os aromas sedutores” (PERISSÉ, 2008, p.9), mas também, atentar “aos fedores, aos indícios de decadência e deterioração” (idem). Rediscutir e estranhar a realidade é tarefa da Filosofia, bem como fugir da atitude banal daquele que se conforma à tudo, que não reage mais diante de um mundo absurdo, como lembra a figura do personagem Meursault, que mata um árabe por impulso e não se emociona com a morte da própria mãe. Dito de outro modo, a Filosofia, como sinaliza Ghiraldelli (2007), traz em seu bojo a missão de desbanalizar o banal, ou o mundo banalizado; isto inclui o campo da educação: debanalizar a banalização da educação – Filosofar a educação. Segundo Luckesi (2011) a filosofia está atrelada à ideia de uma concepção sistêmica e coerente da realidade, condicionada e condicionante em relação à historicidade e pode tornar-se uma ferramenta a favor do poder, seja ele democrático ou tirânico, como ocorreu durante a ocupação nazista, na Segunda Guerra Mundial, ou ainda, pode ser instrumento de transformação da realidade vivida e mudar a condição humana; para a manutenção ou para a transformação, a filosofia pode ser um instrumento que conspire a favor ou contra a condição humana, um instrumento de ação política, e não, apenas uma contemplação “vazia” e passiva sobre o mundo e o ser. Luckesi, inspirado em Jasper, fala da possibilidade de uma antifilosofia, ao citar este segundo autor, que sinaliza para o fato de que a filosofia pode servir, também, aos interesses do poder dominante e, sempre, não se constituirá um pensamento “neutro”, “mas sim, embebido de história e de seus problemas, de seus interesses e aspirações” (LUCKESI, 2011, p.42). Diz Jasper: [...] A filosofia se vê rodeada de inimigos, a maioria dos quais não tem consciência dessa contradição. A autocomplacência burguesa, os convencionalismos, o hábito de considerar o bem-estar material como razão suficiente de vida, o hábito de só apreciar a ciência e, função de sua utilidade técnica, o ilimitado desejo do poder, a bonomia dos políticos, o fanatismo das ideologias, a aspiração a um nome literário – tudo isso proclama a antifilosofia. E os homens não o percebem porque não se dão conta do que estão fazendo. E permanecem inconscientes de que a antifilosofia é uma filosofia, embora pervertida, que, se aprofundada, engendraria sua própria liquidação (JASPER apud LUCKESI, 2011, p.41). Nesse sentido, o estudo filosófico se mostra como uma possibilidade de que o homem seja “mais” e “melhor”, atinja o que Aristóteles 384-322 a.C) chamava de boa vida, ainda que seu conceito de “boa vida” não seja exatamente o mesmo ao longo do tempo e espaço cultural da história da civilização. Uma derradeira observação, necessária, já dita: a Filosofia, diferentemente das “filosofias”, não se propõe a ser a panaceia de todos os problemas ou trazer as respostas certas e exatas para os problemas da existência humana, antes, questiona o que está estabelecido ou aquilo que é tido como pronto e acabado, universal e absoluto, a partir do thauma grego (ϴαΰμα), numa postura crítica e não prescritiva ou ditatorial que não pretende ditar a verdade ou revelar fórmulas definitivas para a felicidade humana. Antes, mergulha na vida humana, de “peito aberto”, disponível a conhecer as entranhas da existência humana. É possível, ainda dizer que questões filosóficas já não o são quando resolvidas, nesta contínua tarefa de rediscutir e estranhar a realidade (a vida banalizada e desnuda). Fugir da atitude do “é assim mesmo!” e fazer perguntas permanentemente sobre a vida, procurando as causas ônticas, as origens, as consequências, por meio das melhores perguntas para os problemas que cercam a condição humana para, assim, livrar-se da aparência da superficialidade banalizada de uma vida não examinada. Não espere demais da Filosofia, nem a recuse previamente. Apenas desafie a si mesmo a conhecer e perguntar-se sobre a vida e a condição humana, ciente de que há riscos e conquistas em sair do familiar ensimesmado e mergulhar no mundo de sofia. Ecce Homo

Bibliografia 
ABAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 6. ed.. Revisão e tradução de textos por Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2014. 
A BÍBLIA DE JERUSALÉM. Tradução das introduções e notas de La Sain Bible, edição de 1973, publicada sob direção da “École Biblique de Jerusalém”. São Paulo: Paulinas, 1980. 
ANDERY, Maria Amália etl al., Para compreender a ciência, 5 ed., Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1994. 
ARANHA. Maria L. de A. Filosofando. São Paulo: Moderna, 1993. 
AYOUB, Cristiane Negreiros Abbud. Escutar o mundo para chegar a Deus. Revista Discutindo Filosofia. Ano 1, n. 4, p.8-11. s/d. 
BARROS FILHO. Clóvis de. Ética Kantiana I – publicado em 5 nov. 2013. Disponível em: . Acesso em: 25 fev. 2016. 
MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. 
MORAES, Reginaldo. Neoliberalismo: de onde vem, para onde vai? São Paulo: Editora SENAC, 2001. 
MORENTE. M. G.. Fundamentos de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1976. 
MOSSÉ, Claude. Dicionário da civilização grega. Tradução de Carlos Ramalhete. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. 
PEREIRA, Isidoro. Dicionário Grego-Português. Lisboa: Apostolado da Imprensa, 1976. 
PERISSÉ, Gabriel. Introdução à Filosofia da Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. 
REZENDE, Antonio (Org.). Curso de Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1986. 
SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL, Concordância Bíblica. Brasília, DF: SBB, 1980. 
WARBURTON. N. O básico da Filosofia, R.J.: José Olympio, 2008.

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